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O que tornou possível o desenvolvimento do Chile?

Data da publicação: 29/09/2017

Se alguém lhe perguntasse qual é o país mais desenvolvido da América do Sul, o que você responderia? Chile, Uruguai, Colômbia? Não estaria longe da resposta correta. O menos desenvolvido, não é difícil apontar. Está na mídia nacional e internacional diariamente, em função de sua progressiva, atribulada e drástica situação caótica, que infelizmente torna-se pior a cada dia: a Venezuela. O mais desenvolvido dos países sul-americanos, no entanto, raramente dá as caras na mídia internacional – ao menos nos últimos anos, o tem feito apenas esporadicamente –, e quando o faz, normalmente é protagonizando ótimas notícias. A nação a que me refiro é aquela extensa, porém estreita faixa de terra localizada entre a Argentina e o Oceano Pacífico, tendo 4.270 quilômetros de comprimento, 356 quilômetros de largura em seu ponto mais amplo, e apenas 64 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito: a República do Chile. Hoje uma nação versátil e vibrante, com indicadores econômicos positivos, e um índice de prosperidade de dar inveja não apenas a nós brasileiros, mas a toda a América Latina, o Chile – único país sul-americano considerado uma economia de alta renda pelo Banco Mundial –, como todas as nações do continente, possui uma problemática e contundente história, que – exatamente como nós –, passou pelo medo do comunismo, e dos ardores corrosivos e maléficos do socialismo. A diferença é que o Chile aprendeu com os seus erros, e está determinado a não repeti-los.

Para compreendermos bem o trauma que os chilenos tem para com a escassez e a pobreza – e o que fez eles tomarem o rumo contrário, tornando-se geradores de prosperidade e riqueza – precisamos voltar um pouco no tempo. No princípio dos anos 1970, o socialista Salvador Allende foi eleito presidente, sendo o primeiro político marxista a alcançar o cargo por meio de voto popular em um país da América Latina. Como não poderia deixar de ser – sendo este o critério essencial do socialismo – a economia passou a ser administrada pelo governo, através de um sistema de planejamento centralizado, e diversas empresas foram estatizadas. Com a estatização da economia, não demorou muito tempo para a nação entrar em colapso. Mesmo com as exportações constantes de cobre – o principal commodity do Chile –, flutuações no valor do produto no mercado internacional, combinados a uma absurda hiperinflação doméstica, passaram a ameaçar gravemente a economia do país, que invariavelmente comprometeu a sua estabilidade política e social. Com o agravamento da crise, diversos setores da sociedade chilena – inclusive os militares – não enxergavam alternativas para a normalização da situação, a não ser depor o governo socialista. E assim o fizeram.

A primeira tentativa de tomar o poder – que ocorreu em junho de 1973, e ficou conhecida como Tanquetazo – fracassou miseravelmente. No entanto, em setembro, outra tentativa, que desta vez contou com as forças combinadas do exército, da marinha, da aeronáutica e dos carabineros – a polícia nacional chilena –, ocorreu, logrando êxito imediato. Tanto que o presidente em exercício, Salvador Allende, cometeu suicídio no palácio presidencial de La Moneda, pensando ser esta a saída mais honrosa para evitar a humilhação da deposição. Depois que os militares tomaram o poder, reuniram-se para organizar efetivamente a administração governamental do país. Isso envolvia, principalmente, a elaboração de medidas econômicas capazes de, em um primeiro momento, conter, e depois, erradicar a crise. Para isso, o Chile contou com o formidável auxílio dos Estados Unidos. Mas não era um auxílio de ordem financeira, muito pelo contrário. Era um auxílio didático. Um grupo de economistas americanos – que ficaram conhecidos como Chicago Boys – deslocaram-se até o Chile, para auxiliar a recém-instaurada junta militar a formular uma estratégia econômica capaz de retirar o país das cinzas da miséria e da recessão, e conduzi-la ao patamar do pleno e livre desenvolvimento. E esta iniciativa teve muito sucesso.

A fórmula do Chile foi descentralizar a economia.

A fórmula do Chile foi descentralizar a economia.

A fórmula para a recuperação econômica não era nem um pouco misteriosa, muito pelo contrário; desde o princípio, mostrou-se tão tácita quanto implícita: era necessário descentralizar a economia. Desta maneira, o governo militar radicalizou ao reverter a situação do país de forma completa e abrangente através de inteligentes e eficientes medidas expansivas – em acirrado contraste com as políticas socialistas centralizadoras e estatizantes -, que promoveram uma verdadeira revolução econômica, fazendo o Chile passar da estagnação para a produtividade em questão de semanas. Desta maneira, o governo rapidamente implementou um modelo de liberalismo econômico que removeu impostos, regulamentações e burocracia desnecessária da iniciativa privada, além de tarifas protecionistas. Diversas estatais foram privatizadas, e pequenas e médias empresas, em determinados segmentos, passaram a usufruir de maior liberdade fiscal, poder aquisitivo para compra de matéria-prima e capacidade produtiva. Desta maneira, o caminho para o desenvolvimento e para a liberdade econômica foi plenamente edificado. Tais reformas econômicas liberalizantes mostraram-se cruciais para o progresso do Chile.

 

Desta maneira, o desenvolvimento efetivamente consolidou-se. O desemprego caiu drasticamente, novas empresas foram inauguradas, o setor privado tornou-se mais amplo, próspero e robusto, a qualidade de vida aumentou e novas e fascinantes oportunidades subitamente descortinaram promissoras possibilidades para o futuro. É verdade que nem tudo foi formidável e maravilhoso. No princípio dos anos 1980, o país foi vítima de outra crise financeira, igualmente mortificada por uma severa e drástica hiperinflação, que surgiu como consequência de uma arrojada, porém malsucedida política econômica, sugerida pelos Chicago Boys, que renunciava às taxas de câmbio flutuantes como referência para a estabilidade monetária. Essa medida, combinada com a hipervalorização do peso chileno em relação ao dólar americano, pavimentou o caminho para a pior recessão que o Chile experimentou desde os anos 1930. A incapacidade do governo militar de dar uma resposta efetiva à crise contribuiu para minar a confiança da população, bem como de investidores  estrangeiros, na economia chilena.  

Não obstante, a crise foi combatida da mesma maneira que se combateu à crise provocada pelo socialismo. Tendo experimentado o caminho da robustez, da abundância e da eficiência que acompanha o liberalismo, o governo chileno continuou ampliando as mesmas reformas econômicas que solidificaram a sua economia, por conceder amplas liberdades à livre iniciativa, fomentando a geração de riquezas, o que gerou resultado em cima de resultado, fortalecendo a expansão das políticas liberais previamente estabelecidas. Este é um dos fortes motivos pelos quais o Chile nunca mais experimentou a estagnação econômica de novo. A autonomia concedida à livre iniciativa viabiliza soluções que o governo muitas vezes não é capaz de antecipar ou acompanhar.

Esta mentalidade, que prioriza uma expansiva dinâmica de desenvolvimento, é uma herança que orienta as políticas econômicas do Chile até os dias atuais. Para efeitos de comparação, no Chile, é necessário apenas um dia para se registrar uma empresa, e isso pode ser feito sem custo nenhum. No Brasil, no entanto, são necessários, aproximadamente, cento e dezenove dias, e o custo inicial é estimado em dois mil reais. O Chile nos ensina de forma prática a importância do liberalismo: em uma economia liberal, todos vão querer ser empreendedores. Com uma nação repleta de geradores de riqueza, o progresso e o desenvolvimento serão consequências naturais. O desemprego, a pobreza e a miséria, em decorrência disso, serão ostensivamente minimizados.

Quando a revolução econômica do Chile teve início, na metade dos anos 1970, pouco tempo depois dos militares assumirem o poder, a compreensão tácita de que não se deve impor obstáculos aos geradores de riqueza tornou-se tão implícita quanto primordial. Produtores tem que produzir, empreendedores tem que empreender, empresários devem fundar empresas, abrir filiais, fazer negócios, contratações. Não podem perder tempo sendo sabotados e emasculados pela burocracia governamental, que nada tem a acrescentar para a prosperidade de um país. O período socialista de Salvador Allende ensinou muitas coisas aos chilenos. Em primeiro lugar, que com socialismo não se brinca. Em segundo lugar, que socialismo gera apenas pobreza, miséria e escassez. Em terceiro lugar, que a liberalização econômica – intensificada de forma ainda mais perene e abrangente nas décadas de 1990 e 2000 – é o verdadeiro catalisador do desenvolvimento, pois simplifica de maneira fundamental as engrenagens que viabilizam o progresso de um país, de maneira que não ocorrem desperdícios de recurso ou mão de obra, como hoje ocorre no Brasil, onde empresas gastam milhões de reais por ano com profissionais contábeis apenas para organizar documentos, calcular alíquotas e descobrir quanto de impostos devem pagar.

Hoje, apenas 3% da força de trabalho no Chile está alocada no setor público.

Hoje, apenas 3% da força de trabalho no Chile está alocada no setor público.

Hoje, apenas 3% da força de trabalho no Chile está alocada no setor público. Todos os outros estão no setor privado. O que nos mostra que o progresso e o desenvolvimento de um país dependem exponencialmente de um estado pequeno. Desta maneira, o governo será incapaz de perturbar e comprometer o crescimento e o desenvolvimento da iniciativa privada. O magnífico exemplo do Chile nos ensina de forma empírica que o progresso de um país está diretamente relacionado à sua capacidade de impedir o alargamento do setor público. Quando este cresce demais, passa a parasitar o setor privado, até estagná-lo, sufocá-lo e asfixiá-lo. O que, lamentavelmente, vem a ser a nossa situação, aqui no Brasil. Precisamos de mais Chile, e menos Venezuela.

Fonte: Jornal do Empreendedor